Riscos de descolamento de retina após cirurgia de catarata
A cirurgia de catarata pode aumentar o risco de descolamento de retina? Entenda quem precisa de atenção especial, quais sintomas exigem urgência e como cuidar da retina antes e depois da operação.
A cirurgia de catarata é um dos procedimentos oftalmológicos mais realizados no mundo e apresenta elevados índices de segurança e recuperação visual. Entretanto, como qualquer intervenção cirúrgica, envolve alguns riscos, incluindo complicações que podem afetar a retina, como o descolamento de retina.
Embora seja uma complicação pouco frequente, o risco de descolamento de retina é maior em pessoas que passaram por cirurgia de catarata, especialmente pacientes com alta miopia, alterações periféricas da retina, histórico de descolamento ou determinadas complicações durante a operação.
Um estudo publicado em 2023, utilizando dados de mais de 3 milhões de cirurgias de catarata registradas pela American Academy of Ophthalmology, identificou descolamento de retina em aproximadamente 0,21% dos olhos operados durante o primeiro ano após a cirurgia, equivalente a cerca de um caso a cada 500 procedimentos.
É importante compreender que esse percentual representa uma média observada na população estudada, e não o risco individual de cada paciente. Algumas pessoas apresentam uma predisposição significativamente maior, enquanto outras possuem um risco bastante reduzido.
Conhecer os fatores associados ao descolamento de retina permite identificar pacientes que necessitam de cuidados específicos antes e depois da cirurgia de catarata.
Por que a cirurgia de catarata aumenta o risco de descolamento de retina?
Para compreender essa relação, precisamos conhecer algumas estruturas internas do olho.
A retina é uma fina camada de tecido neurossensorial localizada no fundo do olho, responsável por captar os estímulos luminosos e transformá-los em impulsos nervosos que serão interpretados pelo cérebro.
Em contato com sua superfície interna está o humor vítreo, uma substância gelatinosa e transparente que preenche a maior parte da cavidade posterior do globo ocular.
Durante o processo natural de envelhecimento, o vítreo sofre alterações em sua consistência, tornando-se progressivamente mais líquido e podendo se separar da retina. Esse fenômeno é conhecido como descolamento do vítreo posterior.
Na maioria das pessoas, essa separação acontece sem causar problemas importantes. Entretanto, quando existem regiões em que o vítreo permanece fortemente aderido à retina, o movimento pode exercer uma força de tração suficiente para provocar um rasgo.
Durante a cirurgia de catarata, o cristalino natural é removido e substituído por uma lente intraocular artificial. Essa mudança pode alterar a dinâmica das estruturas internas do olho e favorecer modificações no vítreo, incluindo o desenvolvimento do descolamento do vítreo posterior.
Quando a tração provoca uma rotura na retina, o líquido presente na cavidade vítrea pode passar através da abertura, acumulando-se sob o tecido retiniano e separando-o de sua posição normal.
Esse processo é chamado de descolamento de retina regmatogênico, o tipo mais frequentemente associado à cirurgia de catarata.
É importante destacar que o descolamento não significa necessariamente que houve um erro durante a cirurgia. Ele pode ocorrer mesmo após um procedimento tecnicamente bem-sucedido, devido às características anatômicas do olho e à predisposição individual do paciente.
Qual é o risco de descolamento de retina após a cirurgia?
O descolamento de retina é considerado uma complicação incomum da cirurgia de catarata, mas seu risco não é igual para todos os pacientes.
Em uma análise do IRIS Registry, banco de dados oftalmológicos dos Estados Unidos, foram avaliados mais de 3,17 milhões de olhos submetidos à cirurgia de catarata entre 2014 e 2017.
Durante o primeiro ano após a operação, aproximadamente 0,21% dos olhos desenvolveram descolamento de retina regmatogênico, enquanto 0,17% apresentaram roturas retinianas sem descolamento.
O estudo também identificou diferenças importantes entre os grupos de pacientes. Pessoas mais jovens submetidas à cirurgia apresentaram maior risco que pacientes idosos, e homens apresentaram incidência superior à observada em mulheres.
Entretanto, esses resultados não significam que uma pessoa mais jovem necessariamente desenvolverá descolamento de retina ou que a cirurgia seja contraindicada nesses pacientes.
Os números representam associações estatísticas que precisam ser interpretadas juntamente com as condições particulares de cada olho.
Além disso, o risco não desaparece após o primeiro ano. O descolamento pode ocorrer meses ou anos depois da cirurgia, tornando importante o acompanhamento oftalmológico e o reconhecimento dos sinais de alerta.
Principais fatores de risco para descolamento de retina após cirurgia de catarata
Algumas características aumentam a predisposição ao descolamento de retina, independentemente da realização de uma cirurgia.
Quando esses fatores estão presentes em pacientes submetidos à cirurgia de catarata, a atenção à saúde da retina se torna especialmente importante.
1. Alta miopia
A alta miopia é um dos fatores associados ao aumento do risco de descolamento de retina após a cirurgia de catarata.
Em muitos pacientes míopes, o globo ocular apresenta um comprimento axial maior que o habitual, fazendo com que a retina fique mais estirada e algumas regiões periféricas se tornem mais finas.
Essa característica favorece o aparecimento de degenerações retinianas, buracos e rasgos que podem permitir a passagem de líquido sob a retina.
Além disso, as alterações do vítreo podem acontecer mais precocemente em pessoas com alta miopia, aumentando a possibilidade de tração sobre regiões fragilizadas.
Por esse motivo, pacientes com miopia elevada precisam de avaliação individualizada antes da cirurgia de catarata, especialmente quando existem alterações conhecidas na retina periférica.
2. Degeneração lattice e roturas retinianas
A degeneração lattice, também chamada de degeneração em paliçada, é uma alteração caracterizada por áreas de afinamento da retina periférica, frequentemente acompanhadas de aderências anormais do vítreo.
Essas regiões podem apresentar buracos atróficos ou desenvolver rasgos quando submetidas à tração vitreorretiniana.
No estudo do IRIS Registry, a degeneração lattice foi um dos fatores com maior associação ao desenvolvimento de roturas e descolamentos de retina após a cirurgia de catarata.
Entretanto, nem toda pessoa com degeneração lattice desenvolverá descolamento, assim como nem toda lesão periférica necessita de tratamento preventivo.
Alguns buracos atróficos permanecem estáveis durante muitos anos e podem ser apenas acompanhados.
Já os rasgos recentes em ferradura, especialmente quando associados a sintomas ou tração persistente, geralmente necessitam de tratamento.
Quando indicado, o oftalmologista pode realizar uma fotocoagulação a laser para formar uma barreira ao redor da rotura, reduzindo o risco de evolução para um descolamento.
3. Histórico de descolamento de retina
Pacientes que já apresentaram descolamento de retina em um dos olhos possuem maior predisposição a desenvolver alterações semelhantes no outro olho.
Isso acontece porque características como alta miopia, degenerações periféricas e predisposição genética podem estar presentes bilateralmente.
Por essa razão, pessoas com histórico pessoal de descolamento devem informar essa condição ao cirurgião antes da realização de qualquer procedimento intraocular.
A avaliação de um especialista em retina e vítreo pode ajudar a identificar alterações que necessitem de tratamento ou acompanhamento específico.
4. Idade e características individuais
Embora a catarata seja mais frequente em pessoas idosas, pacientes submetidos à cirurgia em idades mais jovens apresentam maior risco relativo de descolamento de retina.
Uma das explicações está relacionada às características do humor vítreo.
Em pessoas mais jovens, o vítreo pode apresentar aderências mais intensas à retina. As modificações provocadas após a cirurgia podem favorecer forças de tração sobre essas regiões.
Já em pessoas mais idosas, o descolamento do vítreo posterior pode ter acontecido anteriormente, modificando o mecanismo de risco.
Entretanto, a presença ou ausência de descolamento do vítreo não permite, isoladamente, determinar a segurança da cirurgia.
Outras características anatômicas e o histórico ocular precisam ser considerados.
5. Complicações durante a cirurgia de catarata
A cirurgia de catarata moderna geralmente é realizada por facoemulsificação, técnica que utiliza ultrassom para fragmentar e remover o cristalino opaco através de uma pequena incisão.
Na maioria dos casos, o procedimento acontece sem intercorrências.
Entretanto, algumas situações podem aumentar o risco de complicações retinianas posteriores, especialmente quando ocorre ruptura da cápsula posterior do cristalino ou perda de vítreo durante a cirurgia.
A cápsula posterior é uma fina membrana que normalmente permanece no olho para sustentar a lente intraocular.
Quando essa estrutura se rompe, pode ocorrer deslocamento do vítreo ou necessidade de procedimentos adicionais, modificando as condições internas do olho.
Essas alterações podem aumentar o risco de tração sobre a retina e favorecer o aparecimento de roturas.
Mesmo nessas situações, o descolamento de retina não é inevitável. O risco depende das características da complicação, das condições da retina e do tratamento realizado.
Quanto tempo depois da cirurgia de catarata a retina pode descolar?
O descolamento de retina pode ocorrer nas primeiras semanas, meses ou até anos após a cirurgia de catarata.
No estudo do IRIS Registry, aproximadamente 60% dos descolamentos identificados durante o primeiro ano ocorreram nos primeiros seis meses após o procedimento.
Isso demonstra que o período pós-operatório merece atenção, mesmo depois que a visão parece ter se recuperado completamente.
Entretanto, não existe um prazo determinado após o qual o paciente esteja totalmente livre de desenvolver um descolamento de retina.
As alterações do humor vítreo podem continuar acontecendo com o envelhecimento, e novas roturas podem surgir mesmo anos depois de uma cirurgia bem-sucedida.
Por isso, os sinais de alerta precisam ser reconhecidos independentemente do tempo decorrido desde a operação.
Sintomas de descolamento de retina após a cirurgia de catarata
O descolamento de retina geralmente não provoca dor. Isso pode fazer com que o paciente confunda os primeiros sintomas com alterações normais do período pós-operatório.
Entretanto, algumas manifestações merecem avaliação oftalmológica urgente.
Entre os principais sintomas estão:
- Aparecimento repentino de moscas volantes: pequenos pontos escuros, fios de cabelo ou manchas que parecem flutuar na visão.
- Flashes luminosos: percepção de luzes semelhantes a relâmpagos, especialmente nas regiões periféricas do campo visual.
- Sombra escura na visão: sensação de que uma cortina está cobrindo parte do campo visual.
- Visão embaçada repentina: perda de nitidez que pode ocorrer quando o descolamento atinge regiões importantes da retina.
- Perda de parte do campo visual: dificuldade para enxergar objetos localizados em determinada direção.
É importante diferenciar o aparecimento de novas moscas volantes daquelas que o paciente já percebia antes da cirurgia.
Com a retirada da catarata e a recuperação da transparência dos meios ópticos, algumas pessoas passam a notar com maior facilidade partículas vítreas que já estavam presentes anteriormente.
Entretanto, o aumento súbito da quantidade de manchas, principalmente quando acompanhado de flashes, pode indicar uma rotura na retina.
Leia também o artigo Conheça os três tipos de descolamento de retina e seus sintomas.
O aparecimento repentino de flashes, novas moscas volantes ou perda visual após a cirurgia de catarata exige avaliação oftalmológica urgente. Na presença de uma cortina escura ou perda de parte da visão, procure imediatamente um serviço de urgência oftalmológica.
Visão embaçada após cirurgia de catarata significa descolamento de retina?
Não necessariamente. A visão embaçada após a cirurgia de catarata pode apresentar diferentes causas, muitas delas tratáveis e sem relação com descolamento de retina.
Nos primeiros dias após a operação, por exemplo, o paciente pode apresentar edema de córnea, inflamação ocular e alterações temporárias da superfície do olho.
Outra complicação que pode surgir após a cirurgia é o edema macular cistoide, também conhecido como síndrome de Irvine-Gass.
Essa condição acontece quando uma resposta inflamatória favorece o acúmulo de líquido na mácula, região central da retina responsável pela visão de detalhes.
O paciente pode apresentar redução da visão central, dificuldade para ler e imagens distorcidas, geralmente sem perceber a sombra periférica característica de muitos descolamentos regmatogênicos.
Em outras situações, a visão pode piorar devido à opacificação da cápsula posterior, frequentemente chamada de catarata secundária.
Embora essas condições sejam diferentes do descolamento de retina, somente o exame oftalmológico permite identificar a causa da redução visual.
Uma piora importante ou repentina da visão após a cirurgia nunca deve ser considerada normal sem avaliação médica.
A capsulotomia com laser YAG aumenta o risco de descolamento de retina?
Após a cirurgia de catarata, alguns pacientes desenvolvem uma opacificação da cápsula posterior, membrana que permanece no olho após a retirada do cristalino.
Essa alteração pode provocar uma redução progressiva da visão, semelhante àquela que o paciente apresentava antes da cirurgia.
O tratamento costuma ser realizado por meio de capsulotomia com laser Nd:YAG, procedimento que cria uma abertura na região opacificada da cápsula, permitindo novamente a passagem adequada da luz.
Alguns estudos observaram associação entre a capsulotomia e o descolamento de retina, principalmente em determinados grupos de maior risco, como pacientes com alta miopia.
Entretanto, os resultados científicos não são uniformes, e nem todos os estudos demonstram que o laser YAG aumente independentemente o risco de descolamento.
É importante considerar que pacientes submetidos à capsulotomia já passaram anteriormente pela cirurgia de catarata, que também está associada ao risco retiniano.
Portanto, não é correto afirmar que a capsulotomia YAG necessariamente provoca descolamento de retina.
A avaliação prévia, especialmente em pacientes com fatores de risco, permite identificar condições que merecem acompanhamento específico.
A avaliação da retina antes da cirurgia de catarata ajuda a prevenir complicações
Uma das medidas importantes na preparação para a cirurgia de catarata é avaliar a saúde da retina.
O mapeamento de retina é um exame realizado com a pupila dilatada que permite observar a retina periférica e identificar alterações como degenerações, buracos e rasgos.
A avaliação é especialmente relevante em pacientes com alta miopia, histórico de descolamento de retina, sintomas vitreorretinianos ou outras condições que aumentem o risco de complicações.
Quando uma rotura de alto risco é identificada, pode ser indicado o tratamento preventivo com fotocoagulação a laser antes da cirurgia de catarata.
Entretanto, nem todas as alterações identificadas durante o exame precisam de tratamento.
As recomendações da American Academy of Ophthalmology destacam que não existem evidências suficientes para indicar laser preventivo indiscriminadamente em todas as roturas assintomáticas apenas porque o paciente será submetido à cirurgia de catarata.
Por isso, a avaliação por um especialista em retina e vítreo permite diferenciar lesões que necessitam de intervenção daquelas que podem ser acompanhadas.
O objetivo é identificar fatores de risco relevantes, tratar as alterações que realmente apresentam perigo e oferecer condições mais seguras para a realização da cirurgia.
Como reduzir o risco de descolamento de retina depois da cirurgia?
Não existe uma maneira de eliminar completamente o risco de descolamento de retina, especialmente em pacientes com predisposição anatômica ou histórico de doenças retinianas.
Entretanto, alguns cuidados podem contribuir para o reconhecimento precoce e o tratamento adequado de alterações que possam comprometer a visão.
Antes da cirurgia, é importante informar ao oftalmologista sobre alta miopia, traumas oculares anteriores, histórico de descolamento e doenças conhecidas da retina.
Após a operação, o paciente deve comparecer às consultas de acompanhamento e seguir as orientações específicas do cirurgião.
O surgimento de novos sintomas visuais deve ser comunicado imediatamente, mesmo quando o período de recuperação já terminou.
Também é importante compreender que nem toda rotura retiniana provoca sintomas perceptíveis. Por isso, pacientes com maior risco podem necessitar de avaliações periódicas, conforme a recomendação médica.
O acompanhamento permite identificar alterações antes que evoluam para complicações mais graves, embora não seja possível prevenir todos os descolamentos.
Tratamento do descolamento de retina após cirurgia de catarata
Quando uma rotura retiniana é identificada antes de provocar o descolamento, pode ser possível realizar fotocoagulação a laser para criar uma barreira ao redor da lesão.
Esse tratamento ajuda a impedir que o líquido atravesse a rotura e se acumule sob a retina.
Entretanto, quando o descolamento de retina regmatogênico já está estabelecido, geralmente é necessária uma intervenção cirúrgica para reposicionar o tecido.
Entre as técnicas utilizadas estão a retinopexia pneumática, a introflexão escleral e a vitrectomia posterior, que podem ser realizadas isoladamente ou em associação, dependendo das características da doença.
A vitrectomia posterior permite remover o humor vítreo e aliviar as forças de tração sobre a retina, além de tratar roturas com laser e utilizar gases intraoculares ou óleo de silicone para manter a retina posicionada durante a recuperação.
A escolha do procedimento depende da localização e extensão do descolamento, da quantidade de roturas, da presença de membranas e das condições individuais do paciente.
O prognóstico visual está diretamente relacionado a fatores como o comprometimento da mácula, o tempo de evolução da doença e a existência de outras alterações retinianas.
Quanto mais cedo o descolamento é identificado e tratado, especialmente antes de atingir a mácula, maiores são as possibilidades de preservar a visão.
Conheça também as opções de cirurgia e outros tratamentos para o descolamento de retina.
A importância do acompanhamento com um especialista em retina e vítreo
A cirurgia de catarata oferece benefícios importantes para a qualidade de vida, permitindo recuperar a transparência dos meios ópticos e melhorar significativamente a visão de muitos pacientes.
O risco de descolamento de retina não deve ser interpretado como motivo para evitar uma cirurgia indicada, mas como uma condição que precisa ser considerada durante o planejamento e o acompanhamento do procedimento.
Pacientes com alta miopia, degenerações periféricas, histórico de roturas ou descolamento de retina podem necessitar de avaliação especializada antes e depois da cirurgia.
O exame da retina permite identificar alterações predisponentes, orientar sobre os riscos individuais e determinar quando um tratamento preventivo é realmente necessário.
Na Clínica Midori, em Brasília, a avaliação especializada em retina e vítreo faz parte do acompanhamento de pacientes com doenças retinianas e daqueles que necessitam de avaliação antes ou depois de procedimentos intraoculares.
Embora o descolamento de retina após cirurgia de catarata seja pouco frequente, reconhecer os fatores de risco e procurar atendimento rapidamente diante dos primeiros sintomas é fundamental para preservar a visão.

