Modulação hormonal, menopausa e visão: entenda os efeitos dos hormônios nos olhos

A modulação hormonal é uma expressão utilizada para descrever intervenções destinadas a modificar ou repor níveis hormonais no organismo. O termo tornou-se conhecido principalmente em discussões sobre menopausa, envelhecimento, qualidade de vida e uso de hormônios como estrogênio, progesterona e testosterona.

É importante, porém, fazer uma distinção. A chamada "modulação hormonal" não constitui, por si só, uma indicação médica reconhecida para retardar ou reverter o envelhecimento. O uso de hormônios deve ter uma indicação clínica definida, considerar riscos e benefícios individuais e ser acompanhado pelo médico responsável pelo tratamento.

Isso não significa que os hormônios tenham pouca importância. Pelo contrário: eles participam do funcionamento de diferentes tecidos e órgãos e suas concentrações variam naturalmente ao longo da vida.

Nas mulheres, essas mudanças são particularmente perceptíveis durante o ciclo menstrual, gravidez, climatério e menopausa. Medicamentos também podem modificar esse equilíbrio, como acontece com os anticoncepcionais hormonais e com a terapia hormonal utilizada em determinadas situações.

E os olhos também respondem a essas mudanças.

Modulação hormonal, reposição hormonal e menopausa

A menopausa corresponde ao fim permanente dos ciclos menstruais e é precedida pelo climatério, período em que a produção hormonal ovariana começa a se modificar.

Oscilações e reduções nos níveis de estrogênio, progesterona e outros hormônios podem estar associadas a sintomas como ondas de calor, alterações do sono, secura vaginal e mudanças de humor.

Para algumas mulheres, a terapia hormonal pode ser indicada para o controle de determinados sintomas da menopausa. Sua utilização depende da idade, sintomas, histórico pessoal e familiar, doenças associadas, tipo de hormônio, dose e forma de administração.

A terapia hormonal também apresenta riscos e não deve ser utilizada indiscriminadamente.

Entre os efeitos que precisam ser considerados estão alterações do risco cardiovascular, acidente vascular cerebral e formação de coágulos, especialmente em determinados grupos de pacientes e dependendo da terapia utilizada.

Por isso, iniciar, interromper ou modificar uma terapia hormonal deve ser uma decisão feita com o médico que acompanha a paciente.

Riscos da modulação hormonal

Hormônios exercem efeitos em diferentes partes do organismo. Consequentemente, utilizar um hormônio não significa atuar apenas sobre os sintomas que motivaram sua prescrição.

Estrogênios e progestagênios, por exemplo, podem interferir no sistema cardiovascular e na coagulação sanguínea. O risco varia consideravelmente de acordo com a substância, dose, via de administração e características individuais.

Algumas formas de terapia hormonal da menopausa estão associadas a pequeno aumento do risco de trombose venosa e acidente vascular cerebral. Anticoncepcionais combinados que contêm estrogênio também aumentam o risco de trombose em relação ao de mulheres que não os utilizam.

Isso não significa que esses medicamentos sejam inadequados para a maioria das mulheres. Significa que hormônios são medicamentos com efeitos sistêmicos e precisam ser prescritos considerando o perfil individual de risco.

É justamente nesse ponto que surge uma relação menos conhecida: parte desses efeitos também pode aparecer nos olhos.

O que os hormônios têm a ver com os olhos?

Os olhos não funcionam isoladamente do restante do organismo.

Existem receptores para hormônios sexuais em diferentes tecidos oculares. Estrogênios, progesterona e andrógenos estão envolvidos na regulação da córnea, conjuntiva, glândulas lacrimais e glândulas de Meibômio, entre outras estruturas.

Esses hormônios podem interferir na produção da lágrima, na camada de gordura que evita sua evaporação, na estabilidade do filme lacrimal e em processos inflamatórios da superfície ocular.

Por isso, mudanças hormonais podem coincidir com o aparecimento ou agravamento de sintomas oftalmológicos.

Essa relação é especialmente estudada na doença do olho seco.

Menopausa e olho seco

Mulheres apresentam doença do olho seco com maior frequência que homens, e a prevalência aumenta com a idade.

Durante o climatério e após a menopausa, algumas mulheres percebem sintomas que antes eram inexistentes ou discretos, como:

  • ardência;
  • sensação de areia nos olhos;
  • vermelhidão;
  • coceira ou irritação;
  • sensibilidade à luz;
  • lacrimejamento;
  • dificuldade para utilizar lentes de contato;
  • cansaço ocular;
  • visão que oscila ou fica momentaneamente embaçada.

O lacrimejamento não exclui olho seco. Quando a superfície ocular está irritada, o organismo pode produzir lágrimas reflexas em maior quantidade, mas que não permanecem adequadamente sobre os olhos.

Um dos elementos importantes desse processo são as glândulas de Meibômio.

Hormônios e glândulas de Meibômio

As glândulas de Meibômio estão localizadas nas pálpebras e produzem substâncias oleosas que formam a camada externa do filme lacrimal.

Essa camada reduz a evaporação das lágrimas.

Os andrógenos exercem importante influência sobre o funcionamento dessas glândulas, e alterações hormonais são estudadas como um dos fatores envolvidos na disfunção das glândulas de Meibômio e no olho seco evaporativo.

Por isso, duas pacientes com a mesma queixa de "olho seco" não necessariamente apresentam o mesmo problema.

Em algumas pessoas há redução da produção aquosa da lágrima. Em outras, a lágrima é produzida, mas evapora rapidamente devido à deficiência da camada lipídica. Também é possível haver uma combinação dos dois mecanismos.

Identificar a causa é importante para determinar o tratamento.

Reposição hormonal melhora o olho seco?

Não necessariamente.

Apesar da relação existente entre hormônios e superfície ocular, os estudos sobre terapia hormonal e olho seco apresentam resultados diferentes.

Há pesquisas que observaram melhora de determinados sinais ou sintomas, enquanto outras encontraram maior frequência de olho seco entre mulheres que utilizavam algumas formas de terapia hormonal.

O papel dos estrogênios é particularmente complexo e pode variar conforme tecido, concentração hormonal, idade e outros fatores.

Portanto, não se deve iniciar uma terapia hormonal para tratar olho seco, nem suspender uma terapia prescrita por outro médico apenas porque surgiram sintomas oculares.

O adequado é investigar e tratar a alteração oftalmológica.

Anticoncepcionais também podem afetar os olhos?

Anticoncepcionais hormonais modificam intencionalmente a atividade hormonal do organismo e, por isso, também têm sido estudados em relação à saúde ocular.

Na superfície dos olhos, há estudos sobre possíveis alterações da lágrima, da córnea e das glândulas responsáveis pelo filme lacrimal. Entretanto, os resultados disponíveis ainda não permitem afirmar que anticoncepcionais hormonais causem olho seco de maneira geral.

Há, porém, outra relação que merece atenção: a circulação sanguínea.

Anticoncepcionais combinados contendo estrogênio são conhecidos por aumentar discretamente o risco de trombose venosa sistêmica em determinadas mulheres.

E a retina também possui vasos sanguíneos.

Hormônios, circulação e retina

A retina é uma fina camada de tecido localizada no fundo do olho e possui uma extensa rede de pequenas artérias, veias e capilares.

Alterações nessa circulação podem comprometer rapidamente a visão.

Entre essas doenças estão as oclusões vasculares da retina, nas quais o fluxo de sangue em uma artéria ou veia retiniana é interrompido ou prejudicado.

Hipertensão arterial, alterações do colesterol, diabetes, idade e glaucoma estão entre os fatores associados a algumas dessas condições.

Em pacientes jovens ou quando uma alteração vascular ocorre de maneira inesperada, porém, outros elementos da história clínica também podem se tornar importantes.

Entre eles estão medicamentos utilizados pela paciente, inclusive anticoncepcionais hormonais.

Um grande estudo populacional publicado em 2025 acompanhou mais de 2,2 milhões de mulheres entre 15 e 49 anos. O uso atual de contracepção hormonal esteve associado a um aumento de aproximadamente 40% na taxa relativa de oclusão venosa da retina.

O número absoluto, entretanto, permaneceu muito pequeno: foram aproximadamente 4,6 casos adicionais para cada milhão de mulheres acompanhadas durante um ano.

O aumento foi observado principalmente entre usuárias de anticoncepcionais orais combinados contendo 30 a 40 microgramas de estrogênio. O estudo não encontrou aumento estatisticamente demonstrável com contraceptivos combinados de 20 microgramas nem com dispositivos intrauterinos hormonais.

Portanto, o achado não é motivo para interromper um anticoncepcional por conta própria. Ele mostra algo diferente: informações sobre medicamentos hormonais podem ser relevantes para o oftalmologista diante de determinadas alterações da retina.

O que o mapeamento de retina pode mostrar?

O mapeamento de retina permite examinar diretamente estruturas do fundo do olho, incluindo retina, nervo óptico, artérias e veias retinianas.

Essa característica torna o exame particularmente interessante: os vasos da retina são uma das poucas redes vasculares do organismo que podem ser observadas diretamente durante um exame clínico.

O oftalmologista pode identificar hemorragias, alterações no calibre dos vasos, áreas de isquemia, oclusões vasculares e sinais associados a determinadas doenças sistêmicas.

Em algumas situações, um achado oftalmológico pode justificar investigação clínica além dos olhos.

Uma alteração vascular da retina em uma paciente jovem, por exemplo, pode levar o médico a investigar fatores que seriam menos relevantes em uma pessoa mais velha com hipertensão, diabetes ou outras doenças cardiovasculares já conhecidas.

O uso de anticoncepcionais, histórico de trombose, alterações hematológicas e outros fatores podem fazer parte dessa investigação.

Uma alteração na retina significa que existe uma trombose no restante do corpo?

Não.

Esse é um ponto importante.

Uma oclusão venosa da retina não equivale a uma trombose venosa profunda nas pernas, e os fatores responsáveis pelas duas doenças não são exatamente os mesmos.

O mapeamento de retina também não diagnostica uma trombose em outra parte do organismo.

O que pode acontecer é o exame revelar uma alteração vascular que, analisada em conjunto com idade, medicamentos, histórico clínico e outros sintomas, leve o oftalmologista a recomendar investigação sistêmica.

Por isso, uma informação aparentemente distante da visão pode se tornar importante durante uma consulta oftalmológica.

Dor nas pernas, falta de ar e outros sintomas precisam ser relatados

Em mulheres que utilizam medicamentos contendo estrogênio, sintomas compatíveis com problemas vasculares merecem atenção médica.

Dor ou inchaço inexplicado em uma das pernas, por exemplo, podem estar presentes em uma trombose venosa profunda.

Falta de ar súbita, dor no peito ou tosse com sangue podem indicar uma complicação pulmonar e exigem atendimento médico imediato.

Se esses sintomas aparecem associados a uma alteração ocular incomum, é especialmente importante que o oftalmologista conheça todo o quadro da paciente e os medicamentos que ela utiliza.

Da mesma forma, redução súbita da visão, aparecimento repentino de uma mancha escura ou perda de parte do campo visual exigem avaliação oftalmológica rápida.

Os olhos podem fazer parte de um problema que não começou neles.

Nem toda alteração visual durante a menopausa é causada pelos hormônios

Existe também uma coincidência importante.

Climatério e menopausa acontecem justamente em uma fase da vida na qual outras alterações oftalmológicas começam a se tornar mais comuns.

A presbiopia, popularmente chamada de "vista cansada", geralmente começa a ser percebida depois dos 40 anos e provoca dificuldade progressiva para focalizar objetos próximos.

Assim, uma mulher pode começar a ter dificuldade para ler justamente durante o climatério sem que uma alteração seja causada pela outra.

Catarata, glaucoma e algumas doenças da retina também se tornam mais frequentes com o avanço da idade.

Por isso, atribuir automaticamente uma mudança visual à menopausa pode esconder uma condição oftalmológica independente.

Visão embaçada pode estar relacionada aos hormônios?

Pode, mas existem várias possíveis explicações.

Uma superfície ocular ressecada e um filme lacrimal instável podem produzir visão flutuante. É comum a pessoa perceber que a imagem fica embaçada e melhora temporariamente depois de piscar.

Alterações importantes ou persistentes da visão, entretanto, precisam ser investigadas.

O fato de a paciente estar passando pelo climatério, utilizar anticoncepcional ou fazer terapia hormonal não deve ser usado para explicar uma alteração visual antes de excluir outras causas.

O que informar ao oftalmologista?

A lista de medicamentos faz parte da avaliação médica e deve incluir também hormônios.

É importante informar ao oftalmologista sobre uso de:

  • anticoncepcional oral;
  • adesivo ou anel contraceptivo;
  • dispositivo intrauterino hormonal;
  • terapia hormonal da menopausa;
  • testosterona;
  • progesterona;
  • estrogênio;
  • outros tratamentos hormonais.

Também vale mencionar mudanças recentes de medicação e sintomas surgidos aproximadamente no mesmo período.

Essas informações não significam necessariamente que o medicamento seja responsável pelo problema. Elas ajudam o médico a interpretar o conjunto de sinais e sintomas.

Os olhos também fazem parte da saúde da mulher

Hormônios atuam muito além do sistema reprodutivo.

As mudanças naturais que acontecem durante a vida, assim como anticoncepcionais e terapias hormonais, podem ter repercussões em diferentes tecidos do organismo.

Nos olhos, essa relação é particularmente relevante na superfície ocular e no olho seco. Também existem situações menos frequentes nas quais medicamentos hormonais e fatores sistêmicos precisam ser considerados diante de alterações vasculares da retina.

É por isso que uma consulta oftalmológica não se resume a medir o grau dos óculos.

Sintomas, medicamentos, histórico familiar, doenças sistêmicas e mudanças recentes no organismo ajudam a explicar o que o médico encontra durante o exame dos olhos.

A Clínica Midori atua exclusivamente em oftalmologia e não realiza modulação, prescrição ou reposição hormonal. Quando uma paciente apresenta alterações oculares durante o climatério, menopausa ou uso de medicamentos hormonais, nossa atuação é identificar e tratar as repercussões oftalmológicas e, quando necessário, orientar a investigação conjunta com o médico responsável pelo acompanhamento sistêmico.

Dra. Liene Midori Nakanishi

Oftalmologista especialista em Retina e Vítreo
CRM-DF 20240 / RQE 12088


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