Injeção intravítrea: riscos, efeitos colaterais e sinais de alerta
Após a injeção intravítrea, quais reações são esperadas e quais exigem urgência? Conheça os efeitos colaterais mais comuns, os riscos do procedimento e os sinais de alerta que não devem ser ignorados.
As injeções intravítreas são utilizadas no tratamento de diversas doenças da retina, incluindo a degeneração macular relacionada à idade (DMRI), o edema macular diabético e as oclusões venosas retinianas. Embora sejam procedimentos considerados seguros, realizados rotineiramente por especialistas em retina e vítreo, podem provocar efeitos colaterais e, em situações raras, complicações capazes de comprometer a visão.
Após a aplicação, é relativamente comum apresentar uma pequena mancha vermelha na parte branca do olho, sensação de areia, lacrimejamento ou visão temporariamente embaçada. Essas manifestações geralmente estão relacionadas à manipulação da superfície ocular e tendem a desaparecer espontaneamente.
Entretanto, alguns sintomas precisam ser diferenciados das reações habituais. Dor ocular que aumenta com o passar das horas, redução importante da visão, vermelhidão progressiva e sensibilidade acentuada à luz podem indicar uma complicação que necessita de tratamento urgente, como uma infecção intraocular.
Conhecer essas diferenças é especialmente importante para pacientes que realizam aplicações periódicas, já que doenças crônicas da retina podem exigir tratamento durante meses ou anos.
Quais são os efeitos colaterais mais comuns após uma injeção intravítrea?
A injeção intravítrea permite administrar medicamentos diretamente na cavidade vítrea, localizada na parte posterior do olho, próxima à retina. Para realizar o procedimento, o oftalmologista utiliza anestesia local e introduz uma agulha fina através da esclera, a parte branca do olho, após preparar adequadamente a superfície ocular.
Embora a aplicação propriamente dita seja rápida, o contato com os instrumentos e a utilização de antissépticos podem provocar irritação temporária. Uma das queixas mais comuns é a sensação de que existe um pequeno grão de areia dentro do olho, acompanhada de ardência ou lacrimejamento. Esse desconforto pode estar relacionado principalmente à ação da iodopovidona, substância utilizada na antissepsia para reduzir o risco de infecção.
Também é possível que o paciente perceba uma pequena mancha vermelha na parte branca do olho, chamada de hemorragia subconjuntival. Ela ocorre quando um vaso sanguíneo superficial se rompe na região da aplicação. Apesar de sua aparência às vezes chamar bastante a atenção, esse tipo de sangramento geralmente não compromete a visão e costuma desaparecer espontaneamente ao longo de uma ou duas semanas.
Pessoas que utilizam anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários podem apresentar sangramentos superficiais mais evidentes. Entretanto, esses medicamentos não devem ser interrompidos por iniciativa do paciente, pois sua suspensão pode provocar riscos importantes à saúde. Qualquer orientação sobre seu uso deve considerar o histórico clínico e os médicos responsáveis pelo tratamento.
A visão também pode ficar embaçada temporariamente após a injeção. Isso pode acontecer devido a alterações do filme lacrimal, à presença do medicamento na cavidade vítrea ou, ocasionalmente, a pequenas bolhas de ar introduzidas durante a aplicação. Alguns pacientes percebem uma mancha escura móvel que desaparece à medida que a bolha é absorvida.
Essas manifestações costumam melhorar progressivamente, mas a evolução dos sintomas merece atenção. Existe uma diferença importante entre uma irritação superficial que diminui com o passar das horas e uma dor que se intensifica, assim como entre um embaçamento passageiro e uma redução visual significativa ou progressiva. A segunda situação precisa de avaliação médica imediata.
Quais são os riscos mais graves da injeção intravítrea?
As complicações capazes de comprometer permanentemente a visão são incomuns, mas podem acontecer mesmo quando o procedimento é realizado com técnica adequada. Entre as principais estão infecção intraocular, inflamação não infecciosa, aumento da pressão ocular, hemorragias internas e lesões da retina.
Endoftalmite: infecção dentro do olho
A endoftalmite é uma das complicações mais graves das injeções intravítreas. Trata-se de uma infecção que atinge as estruturas internas do olho, podendo provocar inflamação intensa e danos aos tecidos responsáveis pela visão.
A infecção pode acontecer quando microrganismos presentes na superfície ocular ou em outras fontes de contaminação conseguem penetrar na cavidade vítrea durante o procedimento. Sua frequência é baixa, mas a gravidade justifica os cuidados rigorosos de antissepsia e a orientação sobre os sintomas após a aplicação.
As manifestações podem incluir dor, vermelhidão crescente, sensibilidade à luz e redução da visão, frequentemente nos primeiros dias após a injeção. Entretanto, nem todas aparecem simultaneamente, e a ausência de dor intensa não exclui completamente uma infecção.
O tratamento depende da avaliação oftalmológica e pode envolver a administração de antibióticos diretamente dentro do olho. Em determinadas situações, também pode ser necessária uma cirurgia de vitrectomia para remover material inflamatório e auxiliar no controle da infecção.
O resultado visual depende de fatores como o microrganismo envolvido, a intensidade da inflamação e o tempo decorrido até o início do tratamento. Por isso, a suspeita de endoftalmite exige atendimento imediato, sem aguardar a próxima consulta programada.
Inflamação intraocular não infecciosa
Alguns pacientes podem desenvolver uma reação inflamatória dentro do olho sem que exista uma infecção por bactérias ou outros microrganismos. Essa condição é conhecida como inflamação intraocular estéril e pode estar relacionada à resposta individual ao medicamento ou a características de sua formulação.
O paciente pode apresentar visão embaçada, manchas flutuantes, desconforto e sinais de inflamação identificados durante o exame oftalmológico. Em alguns casos, o quadro se assemelha ao de uma endoftalmite infecciosa, o que torna a diferenciação particularmente importante.
Enquanto a inflamação não infecciosa pode responder a tratamentos anti-inflamatórios, uma infecção exige abordagem específica e urgente. A aparência dos sintomas, isoladamente, não é suficiente para estabelecer essa diferença, motivo pelo qual qualquer reação importante após a aplicação precisa ser examinada.
Aumento da pressão intraocular
A introdução de líquido dentro do olho pode provocar um aumento temporário da pressão intraocular. Na maioria dos pacientes, a pressão retorna aos valores anteriores em pouco tempo, sem consequências importantes.
Entretanto, pessoas com glaucoma ou outras alterações preexistentes podem apresentar maior dificuldade para tolerar essa elevação. Dependendo das condições do olho e do resultado da avaliação, o oftalmologista pode precisar medir a pressão após a aplicação e, em situações específicas, adotar medidas para reduzi-la.
Além do aumento imediato, alguns pacientes submetidos a aplicações repetidas podem desenvolver elevação sustentada da pressão intraocular. Esse efeito exige acompanhamento, pois a pressão elevada por períodos prolongados pode comprometer o nervo óptico.
O risco também depende do medicamento utilizado, sendo particularmente importante no tratamento com corticosteroides intravítreos.
Hemorragias e descolamento de retina
A hemorragia vítrea é diferente daquela pequena mancha vermelha que aparece na superfície ocular. Nesse caso, o sangramento acontece dentro da cavidade posterior do olho e pode provocar manchas escuras, opacidades móveis e redução importante da visão.
O sangramento pode estar relacionado à doença retiniana que motivou o tratamento ou, menos frequentemente, ao próprio procedimento. A necessidade de intervenção depende da causa, da quantidade de sangue e das condições da retina.
Outra complicação rara é o aparecimento de uma rotura ou descolamento de retina. Quando existe um rasgo no tecido retiniano, o líquido pode passar pela abertura e provocar a separação progressiva da retina de sua posição normal.
Os sintomas mais característicos são o aparecimento repentino de flashes luminosos, aumento de moscas volantes e uma sombra escura que parece avançar sobre parte da visão. O descolamento de retina geralmente não provoca dor, mas pode causar perda visual permanente quando não recebe tratamento adequado.
Conheça os sintomas e os diferentes tipos de descolamento de retina.
Os efeitos colaterais mudam conforme o medicamento utilizado?
Sim. Parte dos riscos está relacionada à própria aplicação, mas os medicamentos intravítreos possuem mecanismos de ação diferentes e, consequentemente, apresentam perfis de segurança que precisam ser considerados individualmente.
Os antiangiogênicos, também conhecidos como anti-VEGF, são utilizados para controlar doenças que provocam crescimento anormal de vasos sanguíneos ou vazamento de líquido na retina. Entre os medicamentos dessa classe estão o aflibercepte (Eylea®), o ranibizumabe (Lucentis®) e o bevacizumabe (Avastin®).
Essas substâncias bloqueiam a atividade do fator de crescimento endotelial vascular, uma proteína envolvida na formação dos vasos sanguíneos e no controle de sua permeabilidade. Seu uso transformou o tratamento de doenças como a DMRI neovascular e o edema macular diabético, permitindo preservar ou melhorar a visão de muitos pacientes que anteriormente apresentavam poucas alternativas terapêuticas.
Além dos efeitos oculares, existe preocupação com possíveis eventos vasculares sistêmicos associados à ação dos antiangiogênicos, especialmente infarto e acidente vascular cerebral. Entretanto, os resultados dos estudos não demonstram um aumento uniforme desse risco em todos os pacientes tratados por via intravítrea. A interpretação depende do medicamento, da população estudada e das condições clínicas individuais.
Pessoas com histórico de doenças cardiovasculares, eventos vasculares recentes ou fatores de risco importantes devem informar essas condições ao oftalmologista. Isso permite avaliar os benefícios e os riscos do tratamento sem pressupor que todas as pessoas com problemas circulatórios estejam impedidas de receber antiangiogênicos.
Para conhecer melhor essa classe de medicamentos, consulte os artigos sobre injeção intravítrea de antiangiogênicos e Avastin® no tratamento das doenças da retina.
Corticosteroides intravítreos e o Ozurdex®
Além dos antiangiogênicos, algumas doenças da retina podem ser tratadas com corticosteroides administrados diretamente no olho. Um exemplo é o implante de dexametasona (Ozurdex®), utilizado em determinadas situações de edema macular e inflamação intraocular.
Diferentemente dos antiangiogênicos, os corticosteroides atuam principalmente sobre processos inflamatórios e mecanismos que aumentam a permeabilidade dos vasos sanguíneos. O implante permite a liberação gradual do medicamento, prolongando seu efeito dentro do olho.
Entretanto, essa classe apresenta riscos próprios, especialmente a elevação da pressão intraocular e o desenvolvimento ou progressão da catarata. Em pacientes que ainda possuem o cristalino natural, o uso de corticosteroides intravítreos pode acelerar o aparecimento de opacidades que reduzem a visão. Também existe maior preocupação com determinadas infecções, devido aos efeitos imunossupressores desses medicamentos.
Essas características não significam que os corticosteroides sejam inferiores aos antiangiogênicos. São tratamentos com indicações diferentes, cuja escolha depende da doença, da resposta às aplicações anteriores e de condições como glaucoma, catarata e histórico de inflamações oculares.
Como reduzir o risco de complicações?
A segurança da injeção intravítrea começa antes da aplicação, com a confirmação do diagnóstico, a escolha adequada do medicamento e a identificação de condições que possam aumentar o risco do procedimento.
A presença de infecção ocular ativa, por exemplo, pode exigir o adiamento da aplicação. Também precisam ser consideradas alergias conhecidas, glaucoma, reações anteriores a medicamentos intravítreos e outras alterações que possam interferir no tratamento.
Durante o procedimento, uma das principais medidas de prevenção é a antissepsia da superfície ocular, geralmente realizada com iodopovidona. A técnica adequada de aplicação, o cuidado com a preparação do medicamento e a redução das possibilidades de contaminação são fundamentais para a segurança.
Na Clínica Midori, em Brasília, os procedimentos de injeção intravítrea são realizados em centro cirúrgico, com preparação e cuidados de assepsia apropriados à aplicação intraocular. Entretanto, o ambiente cirúrgico não elimina completamente o risco de complicações: a segurança depende de todo o processo, desde a indicação até o acompanhamento posterior.
Um aspecto que frequentemente provoca dúvidas é o uso de colírios antibióticos. Embora muitos pacientes imaginem que eles sejam indispensáveis após qualquer procedimento intraocular, as recomendações atuais não indicam antibióticos tópicos rotineiros para prevenir infecções após injeções intravítreas, pois não foi demonstrado benefício consistente dessa prática.
O paciente deve utilizar apenas os medicamentos prescritos e seguir as orientações específicas para seu caso, evitando iniciar ou suspender colírios por conta própria.
Cuidados e sinais de alerta depois da aplicação
Após uma injeção intravítrea sem complicações, a maioria dos pacientes consegue retomar atividades leves rapidamente. As recomendações variam conforme a doença tratada, o medicamento utilizado e as condições individuais, mas geralmente incluem evitar esfregar ou pressionar o olho e reduzir a exposição a possíveis contaminantes, especialmente no dia do procedimento.
O uso de lentes de contato, maquiagem ocular, piscinas e outras atividades que possam aumentar o contato com substâncias irritantes deve seguir as orientações do oftalmologista. Quando existe visão temporariamente embaçada, o paciente não deve dirigir até recuperar a capacidade visual adequada.
Uma pequena hemorragia superficial, lacrimejamento ou sensação de areia podem fazer parte da recuperação. O mais importante é observar se os sintomas estão diminuindo ou se existe uma piora inesperada.
Procure atendimento oftalmológico imediato se apresentar:
- Dor ocular intensa, persistente ou que aumenta após a aplicação.
- Redução importante ou progressiva da visão, mesmo sem dor.
- Vermelhidão crescente, principalmente acompanhada de desconforto.
- Sensibilidade acentuada à luz.
- Aparecimento repentino de muitas manchas ou moscas volantes.
- Flashes luminosos ou sombra escura cobrindo parte do campo visual.
Esses sintomas podem estar relacionados a diferentes complicações, incluindo infecção, inflamação intraocular, aumento da pressão ou alterações da retina. Como algumas delas podem evoluir rapidamente, não é recomendável aguardar a próxima consulta quando existe suspeita de um problema importante.
A avaliação também é necessária quando a piora visual aparece alguns dias após uma aplicação que inicialmente parecia ter ocorrido sem intercorrências.
Aplicações repetidas aumentam os riscos?
Muitas doenças tratadas com injeções intravítreas apresentam evolução crônica, exigindo aplicações periódicas para controlar a atividade da doença. Isso acontece, por exemplo, na DMRI neovascular e no edema macular diabético, condições nas quais a suspensão do tratamento pode permitir o retorno do líquido ou do crescimento vascular anormal.
Cada aplicação representa uma nova exposição aos riscos do procedimento. Entretanto, isso não significa que esses riscos aumentem de maneira idêntica a cada sessão ou que pacientes submetidos a muitas aplicações necessariamente desenvolverão complicações. O risco acumulado depende de diferentes fatores, e alguns efeitos, como a elevação sustentada da pressão intraocular, merecem atenção durante tratamentos prolongados.
O acompanhamento permite verificar a resposta da retina e determinar a necessidade de novas aplicações. Um dos exames mais utilizados é a tomografia de coerência óptica (OCT), que produz imagens das camadas retinianas e ajuda a identificar a presença de edema ou outras alterações estruturais. Dependendo do caso, também podem ser realizados retinografia, medidas da pressão intraocular e mapeamento de retina.
O intervalo entre as aplicações pode ser ajustado conforme o medicamento e a resposta individual, buscando controlar a doença com um esquema adequado às necessidades do paciente. A decisão de interromper, espaçar ou modificar o tratamento deve ser tomada durante o acompanhamento médico, pois a perda de controle de uma doença retiniana também pode provocar sequelas permanentes.
O risco da injeção intravítrea é maior que o risco de não tratar a doença?
Essa comparação depende do diagnóstico e da gravidade das alterações encontradas na retina. Em pacientes com indicação adequada, os benefícios esperados das injeções intravítreas geralmente superam os riscos do procedimento.
Doenças como a degeneração macular neovascular e o edema macular diabético podem comprometer progressivamente as células responsáveis pela visão central. Quando o tratamento é adiado ou interrompido, parte dessas alterações pode se tornar permanente, mesmo que o paciente receba posteriormente a medicação.
Em determinadas situações, existem alternativas ou tratamentos complementares, como a fotocoagulação a laser. Entretanto, laser e injeções intravítreas não apresentam necessariamente as mesmas indicações e não podem ser considerados substitutos em todas as doenças. Conheça as diferenças no artigo sobre laser ou injeção no tratamento da retina.
O objetivo do acompanhamento especializado é avaliar continuamente a relação entre os benefícios e os riscos, identificar possíveis efeitos adversos e ajustar o tratamento conforme a evolução da doença.
A maioria das reações após uma injeção intravítrea é leve e temporária. Ainda assim, o paciente precisa conhecer os sinais que não fazem parte de uma recuperação habitual, especialmente dor progressiva, perda visual e vermelhidão importante. O reconhecimento precoce dessas manifestações permite investigar e tratar complicações antes que provoquem consequências mais graves para a visão.

