Buraco na retina: quando é necessário fazer laser?
Descobriu um buraco na retina e precisa fazer laser? Entenda a diferença entre buracos e rasgos, conheça os sinais de risco e saiba quando a lesão pode ser acompanhada ou precisa de tratamento.
Nem todo buraco na retina precisa ser tratado com laser. Algumas lesões são pequenas, estáveis e apresentam baixo risco de provocar complicações, podendo ser apenas acompanhadas pelo oftalmologista. Entretanto, determinados rasgos na retina podem evoluir rapidamente para um descolamento de retina, uma emergência oftalmológica capaz de provocar perda permanente da visão.
A necessidade de tratamento depende principalmente do tipo de lesão, da presença de tração do vítreo, dos sintomas apresentados e da existência de líquido acumulado sob a retina.
Quando indicado, o tratamento é realizado por meio da fotocoagulação a laser, um procedimento geralmente ambulatorial que cria uma barreira ao redor da lesão para reduzir o risco de descolamento.
O que é um buraco na retina?
A retina é uma fina camada de tecido neurossensorial localizada na parte interna posterior do olho, responsável por captar os estímulos luminosos e transformá-los em impulsos nervosos que são enviados ao cérebro pelo nervo óptico.
Um buraco na retina é uma abertura que compromete a continuidade desse tecido. Dependendo de suas características, a lesão pode permitir que o líquido presente na cavidade vítrea passe para o espaço entre a retina e o epitélio pigmentar da retina, provocando sua separação da parede posterior do olho.
Esse processo pode dar origem ao descolamento de retina regmatogênico, o tipo mais frequente de descolamento.
Entretanto, nem todos os buracos apresentam o mesmo risco. Algumas lesões surgem lentamente em regiões afinadas da retina, enquanto outras são provocadas pela força de tração exercida pelo humor vítreo, uma substância gelatinosa que preenche a cavidade posterior do olho.
É justamente essa diferença que determina boa parte das indicações de tratamento.
Qual a diferença entre buraco e rasgo na retina?
Embora os termos sejam frequentemente utilizados como sinônimos, existem diferenças importantes entre os tipos de roturas retinianas.
Buraco atrófico na retina
O buraco atrófico geralmente apresenta formato arredondado e surge em áreas onde a retina sofreu um processo de afinamento.
É frequentemente encontrado na periferia da retina e pode estar associado à degeneração lattice, também chamada de degeneração em paliçada, uma alteração caracterizada por regiões de afinamento e mudanças na estrutura da retina periférica.
Esses buracos costumam se desenvolver lentamente e, na maioria das vezes, não provocam sintomas.
Quando são pequenos, não apresentam tração significativa e não possuem sinais de progressão, geralmente podem ser acompanhados sem tratamento.
Rasgo de retina em ferradura
O rasgo em ferradura é uma lesão provocada pela tração do humor vítreo sobre a retina.
Com o envelhecimento, o vítreo sofre alterações em sua consistência e pode começar a se separar da superfície retiniana, um processo conhecido como descolamento do vítreo posterior.
Quando existem pontos de aderência mais resistentes, o movimento do vítreo pode puxar a retina e provocar um rasgo semelhante ao formato de uma ferradura.
Diferentemente de muitos buracos atróficos, esse tipo de lesão pode continuar submetido à tração, facilitando a passagem de líquido sob a retina.
Por esse motivo, rasgos em ferradura recentes, especialmente quando acompanhados de flashes luminosos ou moscas volantes, geralmente necessitam de tratamento imediato com laser ou crioterapia.
Buraco operculado
O buraco operculado acontece quando a tração do vítreo arranca um pequeno fragmento da retina, que permanece suspenso na cavidade vítrea.
Quando essa separação elimina completamente a força de tração, o risco de evolução para descolamento costuma ser baixo.
Nessas situações, mesmo que o paciente tenha percebido sintomas anteriormente, o oftalmologista pode optar pelo acompanhamento sem necessidade de laser.
Entretanto, a presença de tração residual ou outras características de risco pode modificar essa conduta.
Quando é necessário fazer laser em um buraco na retina?
A principal finalidade do laser é evitar que uma rotura retiniana evolua para um descolamento de retina.
A indicação é mais frequente quando a lesão apresenta características associadas a um risco elevado de progressão.
Entre as situações que podem justificar o tratamento estão:
- Rasgos recentes em ferradura: especialmente quando existe tração vitreorretiniana e aparecimento súbito de flashes luminosos ou moscas volantes.
- Roturas provocadas por trauma ocular: principalmente quando apresentam características que favorecem a passagem de líquido sob a retina.
- Lesões com líquido sub-retiniano progressivo: quando há sinais de que a retina está começando a se separar das camadas subjacentes.
- Roturas associadas a fatores de risco importantes: como histórico de descolamento de retina no outro olho, dependendo das características individuais da lesão.
É importante destacar que a presença de alta miopia, degeneração lattice ou histórico familiar, isoladamente, não significa que toda alteração na retina deva receber laser preventivo.
A decisão deve considerar o conjunto dos achados encontrados durante o exame oftalmológico.
Quando o buraco na retina não precisa de laser?
Muitos buracos periféricos são identificados durante exames de rotina, em pacientes que não apresentam qualquer alteração na visão.
Quando essas lesões são pequenas, atróficas e não apresentam tração ou sinais de progressão, o risco de descolamento pode ser suficientemente baixo para justificar apenas o acompanhamento.
O mesmo acontece com diversos buracos operculados, principalmente quando não existe mais tração do vítreo sobre a região.
Segundo as recomendações da American Academy of Ophthalmology, buracos atróficos e operculados assintomáticos raramente necessitam de tratamento.
Além disso, não existem ensaios clínicos randomizados que demonstrem benefício do laser preventivo para todas as lesões assintomáticas da retina.
Isso significa que realizar laser em qualquer buraco identificado não é necessariamente a conduta mais adequada.
O procedimento produz cicatrizes intencionais no tecido retiniano e, embora seja geralmente seguro, também apresenta riscos. Por esse motivo, o tratamento deve ser indicado quando o benefício esperado justifica a intervenção.
O acompanhamento periódico permite identificar mudanças na lesão e realizar o tratamento caso surjam sinais de progressão.
Buraco na retina pode causar descolamento?
Sim. Uma rotura retiniana pode permitir a passagem de líquido para o espaço sob a retina, separando-a progressivamente das estruturas responsáveis por seu suporte e nutrição.
Entretanto, a probabilidade de isso acontecer depende das características da lesão.
Buracos atróficos pequenos e sem tração apresentam, geralmente, baixo risco de progressão. Já os rasgos em ferradura com tração persistente podem evoluir para descolamento com muito mais facilidade.
Essa diferença explica por que dois pacientes com diagnósticos aparentemente semelhantes podem receber orientações distintas: um pode precisar de laser imediatamente, enquanto outro pode apenas realizar avaliações periódicas.
Quando a retina começa a se descolar, o paciente pode perceber uma sombra escura que avança sobre parte do campo visual, semelhante a uma cortina.
Se a região central da retina, chamada mácula, for comprometida, a visão de detalhes também poderá ser afetada.
Conheça os tipos de descolamento de retina e seus principais sintomas.
Como é feito o laser para tratar um buraco na retina?
A fotocoagulação a laser é um procedimento realizado para criar uma barreira de adesão ao redor da rotura retiniana.
Inicialmente, o oftalmologista utiliza colírios para dilatar a pupila e anestesiar a superfície do olho.
Durante o procedimento, um equipamento emite feixes de luz concentrados sobre pontos específicos da retina, produzindo pequenas queimaduras controladas ao redor da lesão.
Essas aplicações provocam uma reação cicatricial que aumenta a adesão entre a retina e os tecidos subjacentes, dificultando a passagem de líquido pela abertura.
É importante compreender que o laser não fecha fisicamente o buraco, como uma sutura. Sua função é criar uma barreira ao redor da lesão para impedir que ela provoque um descolamento.
O paciente pode perceber flashes luminosos durante as aplicações e sentir algum desconforto, cuja intensidade varia conforme a região tratada e a sensibilidade individual.
Na maioria dos casos, o tratamento é realizado em uma sessão ambulatorial, sem necessidade de internação.
Saiba mais sobre como funciona a fotocoagulação a laser para doenças da retina.
O laser na retina dói? Como é a recuperação?
A fotocoagulação periférica costuma ser bem tolerada, especialmente porque é realizada com anestesia local.
Entretanto, algumas aplicações podem provocar desconforto ou sensação de pressão no olho, principalmente quando são necessárias muitas aplicações ou quando a região tratada é mais sensível.
Após o procedimento, é comum apresentar visão embaçada temporariamente, sensibilidade à luz e algum desconforto ocular.
Esses sintomas podem estar relacionados tanto às aplicações do laser quanto à dilatação da pupila e ao contato com os equipamentos utilizados durante o procedimento.
A formação da cicatriz que mantém a retina aderida não acontece instantaneamente. A adesão aumenta progressivamente nos primeiros dias, podendo levar algumas semanas para atingir sua resistência definitiva.
Durante esse período, o oftalmologista pode recomendar restrições temporárias a atividades físicas intensas, esforços importantes e movimentos bruscos, conforme as características da lesão.
O paciente também deve comparecer às consultas de revisão para verificar se a barreira de laser está adequada e se surgiram novas alterações retinianas.
O laser impede completamente o descolamento de retina?
Não. A fotocoagulação a laser é eficaz para reduzir o risco de descolamento provocado por determinadas roturas, mas não oferece proteção absoluta contra todas as formas de descolamento de retina.
Isso acontece porque a barreira criada pelo laser protege principalmente a região tratada.
Se o humor vítreo continuar exercendo tração sobre outras partes da retina, novos rasgos podem aparecer em locais diferentes, inclusive em regiões que estavam normais no exame anterior.
Além disso, algumas lesões podem exigir aplicações complementares quando a cicatrização não é suficiente ou quando ocorre progressão.
Por esse motivo, mesmo pacientes que realizaram o procedimento com sucesso precisam manter o acompanhamento oftalmológico e estar atentos ao aparecimento de novos sintomas.
Alta miopia e degeneração lattice sempre precisam de laser?
Não. Pessoas com alta miopia apresentam maior predisposição a alterações periféricas da retina, especialmente porque o globo ocular pode ser mais alongado, provocando estiramento e afinamento de determinadas regiões.
Entre essas alterações está a degeneração lattice, caracterizada por áreas de retina mais fina, que podem apresentar buracos atróficos ou aderências anormais do vítreo.
Entretanto, a presença dessa degeneração não significa que o paciente desenvolverá um descolamento de retina.
Na ausência de roturas de alto risco, sintomas recentes ou sinais de progressão, geralmente é possível realizar apenas o acompanhamento.
A decisão pode ser diferente em pacientes com histórico pessoal de descolamento, determinadas doenças hereditárias ou outras características que aumentem o risco.
Mesmo nesses grupos, a indicação do laser preventivo precisa ser individualizada, pois a evidência científica ainda é limitada para várias situações de tratamento profilático.
Buraco na retina e buraco macular são a mesma coisa?
Não. Essa diferença é especialmente importante porque o tratamento das duas condições pode ser completamente diferente.
Os buracos periféricos acontecem nas regiões mais afastadas do centro da retina e frequentemente não provocam perda visual perceptível. Seu principal risco, dependendo das características, é evoluir para um descolamento de retina.
Já o buraco macular acontece na mácula, região central da retina responsável pela visão de detalhes, leitura e reconhecimento de rostos.
Quando existe um buraco macular, o paciente pode perceber uma mancha no centro da visão, distorção das imagens ou dificuldade para enxergar letras e objetos pequenos.
O diagnóstico geralmente é confirmado pela tomografia de coerência óptica (OCT), exame que permite observar as diferentes camadas da retina.
Nos buracos maculares de espessura total, o tratamento frequentemente envolve cirurgia de vitrectomia, e não a fotocoagulação ao redor da lesão, como acontece com determinadas roturas periféricas.
A vitrectomia posterior é uma técnica cirúrgica utilizada para tratar diferentes doenças da retina e do vítreo, incluindo alguns casos de buraco macular.
Como o oftalmologista identifica um buraco na retina?
O principal exame para identificar buracos e rasgos na periferia da retina é o mapeamento de retina, realizado após a dilatação da pupila.
Durante o exame, o oftalmologista utiliza equipamentos que permitem observar as estruturas localizadas no fundo do olho, inclusive regiões periféricas que não são adequadamente avaliadas em uma fundoscopia simples.
Quando necessário, pode ser realizada uma avaliação com indentação escleral, técnica que facilita a visualização de determinadas regiões periféricas.
O exame permite identificar o tipo de rotura, sua localização, a presença de tração do vítreo e possíveis sinais de líquido sob a retina.
Em situações específicas, exames complementares podem ser necessários.
Conheça as diferenças entre mapeamento de retina e fundoscopia.
Quais são os sintomas de um buraco na retina?
Grande parte dos buracos periféricos não provoca sintomas e é descoberta durante consultas oftalmológicas de rotina.
Entretanto, quando uma lesão está associada à tração do vítreo ou surge de forma repentina, o paciente pode perceber alterações no campo visual.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- Flashes de luz, semelhantes a pequenos relâmpagos, principalmente na visão periférica.
- Aparecimento súbito de moscas volantes, como fios de cabelo, teias de aranha ou pequenos pontos escuros.
- Aumento repentino da quantidade de manchas flutuantes na visão.
- Sombra escura ou sensação de uma cortina cobrindo parte do campo visual.
- Redução súbita da visão.
Esses sintomas não significam obrigatoriamente que existe um buraco na retina. Eles também podem ocorrer devido ao descolamento do vítreo posterior e a outras condições oculares.
Entretanto, como não é possível diferenciar essas situações apenas pelos sintomas, o aparecimento súbito de flashes, aumento de moscas volantes ou perda de parte do campo visual exige avaliação oftalmológica urgente, preferencialmente no mesmo dia.
Na presença de uma sombra ou cortina escura, é importante procurar imediatamente um serviço de urgência oftalmológica.
Leia também sobre manchas pretas e flashes de luz na visão.
É possível prevenir um descolamento de retina tratando o buraco precocemente?
Sim. Quando uma rotura retiniana com risco elevado de progressão é identificada antes do descolamento, o laser pode reduzir significativamente a probabilidade de que essa lesão provoque uma separação da retina.
A identificação precoce também permite acompanhar alterações de baixo risco sem submeter o paciente a procedimentos desnecessários.
Por isso, o objetivo da avaliação oftalmológica não é simplesmente encontrar qualquer buraco e tratá-lo, mas identificar quais lesões realmente representam perigo para a visão.
Pacientes com alta miopia, histórico de descolamento de retina, traumas oculares ou alterações periféricas conhecidas devem manter o acompanhamento indicado pelo especialista.
Quando existe uma rotura de alto risco, o tratamento precoce pode evitar a necessidade de uma cirurgia mais complexa.
Por outro lado, quando o descolamento de retina já está estabelecido, especialmente se estiver progredindo, o tratamento geralmente envolve procedimentos cirúrgicos para reposicionar a retina.
Portanto, encontrar um buraco na retina não significa necessariamente que seja preciso fazer laser. A indicação depende do risco de progressão, da presença de tração e das condições da retina. A avaliação por um oftalmologista especialista em retina e vítreo é essencial para definir quando tratar e quando apenas acompanhar.

